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sábado, 5 de dezembro de 2015

#QLQRUA: A Rua

A rua
A rua com suas idas e vindas, sem saída, com caminhos longos, com cruzamento, com jeito de avenida, curtinhas, enormes. Com poucas árvores, sem nenhuma, com várias. Uma rua de casas coloridas, de casas sóbrias, de prédios, de sítios, de tudo isso.

Quantas histórias estes caminhos não guardam. Quantas vidas bem ou mal vividas já não passaram por ela. Quantos personagens iguais a mim e iguais a ti não existem nestes imóveis? Incontáveis personagens tão diferentes e tão iguais.

A rua símbolo de quem quer seguir em frente, de quem quer às pressas voltar para casa.
A rua é admirada, é olhada com desconfiança. Os apaixonados bem que gostam de namorar em seus espaços mais escondidos e embaixo da luz prateada da lua. Mas nem sempre a rua tem uma bela história de amor, quantas de violência não estão marcadas em suas pedras?

Bem queriam os jovens e os idosos, assim como as crianças, aproveitar melhor o espaço da rua, porém a violência, seja a mão armada ou de trânsito, afasta as pessoas da área pública da rua.

Os lares de cada rua contam histórias seja do passado seja do presente, algumas de pessoas ansiosas também planejam o futuro. Quem será que mora naquela casa azul? Será que a menina da casa verde continua namorando? O rapaz da casa laranja passou no vestibular? Aquele da casa roxa sim, tem faixa de Bixo no portão! E naquele apartamento de cortinas vermelhas...

Já se passaram 69 crônicas, com esta fecha 70. Foram sete dezenas de histórias de coisas, pessoas, sabores, situações. Histórias e opiniões que nasceram de uma rua de Porto Alegre, da casa cor de laranja, personagens e vidas que estão espalhadas por diversas ruas da Capital e além dela.

Ruas que mesmo no escuro são cheias de vida e de luz. Muitas lágrimas e muitos sorrisos. Ruas que podem ser qualquer uma, vidas que são várias.

A série Em Qualquer Rua termina aqui. Mas não terminará as histórias que cada rua, ruela e avenida escondem em suas paredes, grades, postes, chão e céu.

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Objetivo concluído. Aqui a última crônica da série Em Qualquer Rua, mas na página a atualização continuará, se virar livro podem ter certeza que lá haverão crônicas inéditas. Leia todas as crônicas clicando aqui.

sábado, 28 de novembro de 2015

#QLQRUA - Profissão: não me julgue pelas ações dos outros

Profissão: não me julgue pelas ações dos outros. Eu não falaria sobre isso, na crônica pré-despedida da série eu queria um assunto mais ligth. Mas não dá. Tenho visto uma enxurrada de críticas a diferentes profissões, só que neste caos de acusações, muitas verdades e muitas mentiras, quem está sofrendo uma pressão mental são aqueles que se mantém corretos e são éticos.

Com a proibição do Uber em Porto Alegre, com os protestos dos taxistas e os taxistas que agrediram um motorista do Uber, toda a categoria está sofrendo uma dura crítica social. Um boicote se organiza, poucos pensam que o táxi é o ganha pão de muitas famílias, que muitos motoristas não estão nem ai para o Uber.

Li sobre um grupo de advogados que vem sofrendo poucas e boas, já que são acusados de mentirosos e corruptos, pois trabalhavam no mesmo escritório de um  profissional preso por lavagem de dinheiro.

Vira e mexe acusam todos os jornalistas de alguma coisa. Em protestos, ou qualquer lugar com uma união de pessoas, os jornalistas, muitas vezes, são impedidos de trabalhar. Muitos são agredidos, nem ao mesmo as pessoas pensam no valor vital destes profissionais para a manutenção da democracia. Além disso, sempre carregam o selo de “fofoqueiros nível master”, graças aos colegas que trabalham na editoria de 'celebs'.

As secretárias que vira e mexe viram alvo das línguas afiadas, já que diz a lenda que muitas têm casos extraconjugais com seus chefes. Sobra até para quem nunca nem imaginou ter algum enlace afetivo com quem lhe paga o salário no final do mês.

Assim como nas características físicas, no qual recebemos rótulos na testa, como profissionais muitos também ganham rótulos. Pior, têm suas reputações profissionais arrasadas por causa de um mito, novo ou velho.

O mais triste nisto, é perceber que muitos esquecem que antes de ser um profissional, há ali um ser humano, cheio de qualidades, manias e erros. Mais acertos que erros. Apenas esquecemos que um pé de laranja estragada não significa que o pomar inteiro esteja afetado.
Criticar é uma coisa, tornar o momento em uma série de xingamentos sem a mínima base é outra bem diferente.

Protestar para o fim é uma coisa, partir para agressão física ou moral é algo muito pior.
Assim como os rótulos pessoais, devemos abolir os rótulos profissionais, os que colocam em nós e o que colocamos nos outros. Não é uma tarefa fácil, mas se cada um fizer a sua parte, conviver e respeitar o outro tornará a vida nestas loucas sociedades mais fácil.

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Bateu uma tristezinha! Como assim, sábado que vem acaba! É amigos, passados dois anos eis o fim de uma meta, essa é a crônica 69 e sábado que vem a de número 70. A série Em qualquer Rua pode ser lida aqui.

sábado, 21 de novembro de 2015

#QLQRUA: A lama e a tragédia anunciada

Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG). / Rogério Alves/TV Senado - Fotos Públicas
A lama que invadiu o Rio Doce, o matou, destruiu vilarejos em Mariana, Minas Gerais, traz dor de cabeça aos habitantes do estado do Espírito Santo. Matou pessoas trouxe uma tragédia sem tamanho para o Brasil. Destruiu casas, lares, mutilou famílias, matou animais, acabou com lembranças, livros. Destruiu a natureza.

A água de tom escuro que inspirava vida, cheia de peixes, que servia de ganha pão dos pescadores agora tem a cor marrom, esta embarrada. A água é imbebível. Não serve nem mesmo para regar as plantas.

O motivo da gigantesca devastação é porque as barragens que romperam eram de rejeitos de mineração. De acordo com especialistas na água a praticamento todos os elementos da tabela periódica. Só que o pior ainda poderá acontecer, e os técnicos da Samarco (empresa responsável pelas barragens) outras duas ainda poderão se romper, principalmente em virtude da chuva que atingirá o estado mineiro nos próximos dias.

Além da morte de toda uma biodiversidade, até o momento que escrevo essa crônica eram 11 mortos, sendo que apenas oito haviam sido identificados, e 12 pessoas seguem desaparecidas para desespero de suas famílias.

O cruel nisto é que a população de Mariana segue sem dormir a noite, com medo do estouro das outras duas barragens, seguem sem sono ao não poderem abraçar seus parentes sumidos, nem enterrar seus corpos.

A tragédia pode até ter pego todos de surpresa, mas não foi algo que não se imaginasse. Era um fato anunciado. Rachaduras existiam, sabia-se que a capacidade das barragens já não supria mais o que era produzido diariamente. Sabia-se e nada se fez.

Mais uma vez o problema foi ignorado, mais uma vez as causas não foram pensadas. O problema ficou na suposição até que há duas semanas virou realidade. A lama tomou conta de dois vilarejos, destruiu vidas, matou animais, poluiu um rio. A vida aos poucos irá se reestruturar, a natureza por muitos anos sofrerá os impactos da má administração humana. A nós resta cobrar empresas e governos para que a história de Mariana não se repita a outros lugares, que a fiscalização que não foi realizada em Minas Gerais seja feita. Que as leis fiquem mais duras, e acontecimentos catastróficos como este não sejam encarados como naturais, como ocorreu com a lama de Mariana, por via de decreto presidencial.

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Faltam apenas duas crônicas para encerrar a série Em Qualquer Rua, histórias que podem acontecer em qualquer rua, em qualquer casa. Crônicas sobre o cotidiano, sobre mim, sobre vocês ou sobre o vizinho.  Lê-las é fácil, basta clicar aqui.

sábado, 14 de novembro de 2015

#QLQRUA: Mulher/Homem feminista. Por que não?

A flor despetalada é uma forma de representar as vítimas da nossa sociedade

Me diga, caro leitor, existe algum problema em ser feminista? Seja você mulher, seja você homem? Para mim não, não há problema algum, pois ser feminista é mais do que gênero, é ser HUMANO.

Há algum tempo saiu na imprensa o Mapa da Violência, divulgado pelo Instituto Sangari. No estudo, de 1980 a 2010, no Brasil foram mais de 92 mil mulheres mortas. No estudo sobre homicídios e juventude no Brasil, de 2013, revela que de 2001 a 2011, o índice de mulheres mortas houve um aumento de 17,2%, ou seja, mais de 48 mil feminicídios. Só em 2011 mais de 4 mil mulheres foram assassinadas, e em 2013, de acordo com a ONU Mulher, cerca de 4.700 mil brasileiras perderam a vida em razão da violência. Grande parte destes assassinatos são causados pelos parentes das vítimas, como os parceiros, namorados, ex-namorados e maridos.

Mas não são só as mulheres que sofrem violência física no País. De acordo com estudo da UNICEF, no Brasil de 1990 a 2013, cerca de 10,5 mil jovens entre 10 a 19 anos são mortos por ano. O que eleva o País como segundo que mais mata jovens no mundo, atrás apenas da Nigéria. A maioria dos assassinados são os meninos das classes D e E, negros e pardos.

Ok, agora tu deves estar se perguntando qual a relação destes dados com o assunto desta crônica. Calma, eu já explico.

O que ambas pesquisas mostram é que a maioria dos violentados são as pessoas que moram em favelas, vilas, subúrbios ou bairros de periferia. Esses que estão, em grande parte, a mercê de uma sociedade machista, patriarcal e racista. Sem direitos a melhores condições de vida, mesmo que no papel, desde a homologação da Constituição Federal de 1988, o direito a moradia, a igualdade, o acesso à cultura, a educação e saúde sejam garantidos a todos que habitam o Brasil.

Ser feminista é defender a igualdade de gêneros, classes, etnias, religiões. Em um resumão, nada mais é do que defender que todos tenham os mesmos direitos e deveres. É querer que ninguém vire refém da sua condição física ou social.

Se tu és homem ou mulher e ficou chocado com o número de mulheres e jovens mortos, defende as diferentes famílias, não concorda e condena qualquer ato de racismo, informo-lhe, tu és feminista. E por que não?!

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Gente, que loucura, estou chegando ao meu objetivo. Com essa são 67 crônicas da série Em Qualquer Rua. Confira todas clicando aqui.

sábado, 7 de novembro de 2015

#QLQRUA: A falsa imagem de quem gosta de estudar

Usei óculos e virei um cão gênio/ Foto: ThingLink
Há uma falsa imagem quando se pensa em alguém que gosta de estudar, de ler, se é geek ou nerd. A maioria das vezes os personagens usam óculos, são sem graça, usam cores neutras ou pastéis. Tudo mentira, principalmente a questão do óculos de grau.

Eu gostaria de saber quem foi o gênio que criou a imagem do inteligente usando óculos? Quem disse a ele, e ao resto das pessoas que compraram a ideia dele, que as pessoas que são chegadas aos livros usam óculos. Quem disse que quem lê tem problemas de visão?

Uma das primeiras coisas que escutei quando pus óculos foi "nossa como tu ficou com cara de inteligente". Como assim!? Quer dizer que eu passei 27 anos da minha vida sendo burra???

Essa coisinha que uso no rosto não é para enfeitar, me deixar com a aparência de gênio, é para enxergar melhor, para anular a miopia. Basicamente, para que eu possa ver a televisão sentada no sofá, não fique com o nariz grudado nos livros ou nos cadernos, que eu não fique com a cara próxima do computador, que eu veja o quadro e o professor, pegue o ônibus certo, e principalmente, para que eu não morra atropelada.

Tenho uma amiga que não enxerga de pertinho, então ela sempre carrega os óculos dependurado no pescoço, como um colar. Tem até uma correntinha dourada, bem fofa. Ela não vê nada de perto, logo para ler ou ver os detalhes de um objeto precisa coloca-los. Certa vez ela me contou que vira e mexe escutava que ela ficava com uma carinha de menina esperta sempre que botava os óculos.

Ligar esse objeto a figura de pessoa estudiosa é o mesmo que dizer que toda loira é burra. Conheço muita gente que usa óculos, mas foge de um livro como o vampiro foge de alho. Se arrepia só em pensar em estudar, passa longe de ser um nerd ou um geek. Assim como tem vários fanáticos por estudar que quem olha jamais diria isso, pois não usam óculos e tem o corpo todo trabalhado na academia.

As meninas que usam óculos são as que mais sofrem. Quem nunca viu em um filme a cena da guria feia usando óculos que toma um banho de loja, troca os óculos pelas lentes e fica linda. Ou melhor tira os óculos e pronto. Ela ficou linda e com a visão ótima.

Usar óculos não tira o estilo e/ou a beleza de ninguém, nem dá status. Dar as costas para este estereótipo é uma forma de acabar com ele. Nenhuma pessoa é mais isso ou aquilo por causa do óculos que usa, do estilo de roupa ou da cor do cabelo. Somos muito mais complexos que objetos e adornos, e é nisto que está a graça toda.

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Leia as demais crônicas da série Em Qualquer Rua clicando aqui.

sábado, 31 de outubro de 2015

#QLQRUA: Um olhar no espelho

Imagem: arquivo Vidanet
Um olhar no espelho e Seu Walcir tenta se reconhecer, sente medo de morrer, não pela morte em si, mas pelo fato de deixar abandonada a família. É casado, tem três filhos. O rapaz de 30 é pai de Valentina, de 4 anos, a única menina da família. O de 23 anos irá se formar no ano que vem na faculdade. O de 13 anos, bom esse ai, é o mimo de todos. Ainda tem a nora de 28 anos, que fez questão de morar perto dos sogros, que considera como seus pais. Tão perto que mora na casa ao lado. Nos fundos do terreno do Seu Walcir tem um imóvel, será a casa do filho do meio. O mais moço e a neta também terão seus espaços ali pertinho quando crescerem.

Ainda em frente ao espelho ele pensa na família, quando partir quem cuidará da sua amada, dos filhos, da filha postiça e da neta?

Ver o seu reflexo é algo que o senhor de 58 anos tem evitado fazer há cerca de dois anos. Quando descobriu um caroço no peito, no seio esquerdo. Na época não imaginou que seria grave, porém ao visitar o médico recebeu a notícia de que se tratava de um câncer de mama, no mesmo tipo agressivo que lhe levou a mãe prematuramente aos 35 anos. Foi um choque. Logo após a descoberta ele recebeu todo o tratamento, por ter sido cedo os riscos de cura eram altos. Infelizmente o tratamento não impediu que ele perdesse a mama. Em uma cirurgia ele teve o tumor removido, assim como toda a mama e o mamilo.

As quimioterapias lhe levou os poucos fios de cabelo, alguns das sobrancelhas, e alguns cílios. Alguns quilos também. Não estava sendo fácil, mas ele não perdia a piada, o sorriso. Só até a tirada do curativo, colocado após a cirurgia. Quando isso foi feito, Seu Walcir foi ao banheiro sozinho, fechou a porta e lá encarando o espalho viu pela primeira vez o peito, de cabelos brancos, com uma cicatriz, com um lado mais baixo, sem o mamilo. Para ele aquela cena era horrível, aonde existia uma cicatriz, o homem via um buraco gigantesco. Um buraco que lhe cortava o peito. Chorou, em silêncio, sentado ao chão.

Ficou triste, não tira a camisa por nada, nem nos dias mais quentes. Não foi mais a praia nem no clube.

Encontrou força e um pouco mais de vaidade após começar a participar de um grupo no hospital. Lá mulheres que haviam sofrido o mesmo que ele se reuniam para compartilhar histórias, experiências, angústias e alegrias. Walcir era o único homem do grupo, todavia, sabia bem o que aquelas amigas sentiam.

Mesmo com a mama bem menor que uma mulher, mesmo com uma vaidade diferente, a perda do peito foi algo significativo para aquele homem. Perder uma mama ou as duas é algo terrível para as pessoas. Não tê-las não é algo natural, quem as perde acaba também perdendo um pouco da beleza do corpo. Mas Walcir, assim como as amigas ganhou uma prótese mamária e a reconstituição de mamilo.

Claro que perder a mama foi ruim, todavia ter encontrado o tumor cedo foi a melhor coisa a ser feita. Com o tratamento rápido, e após a cirurgia a doença sumiu. Tal como dizem os especialistas, quanto antes se descobrir o câncer maiores são as chances de cura.

No caso das mamas o exame de toque mensal (autoexame) é uma forma de encontrar um nódulo, e procurar ajuda quando perceber algo diferente. Lembrando que mulheres com idades a partir de 40 anos devem fazer também a mamografia. O câncer de mama masculino é raro, atinge menos de 10% dos casos, mesmo assim, homens e mulheres devem cuidar com carinho desta parte do corpo.

Voltando ao Seu Walcir, ele continua lá na frente do espelho, só que agora de olhos fechados. Tira a camiseta, abre apenas um olho, espia a imagem refletida, com um sorriso abre os dois olhos, analisa bem a imagem, toca o peito e solta: _Ficou perfeito!

Rindo sai do quarto e corre mostrar para a família o peito, assim fez a Dona Margaria, amiga de grupo, que após ver que os seis voltaram a serem lindos mostrou a todos.

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Essa é uma história real, apenas foi modificado o nome do personagem. Leia mais crônicas da série Em Qualquer Rua aqui! E não esqueça de seguir a página da série no Facebook clique acesse :)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Marcador de página Em Qualquer Rua: O Feijão

Neste Dia Nacional do Livro resolvi transformar uma das crônicas da série Em Qualquer Rua  em marcador de página. O texto escolhido é um fofinho e sobre um dos alimentos preferidos dos brasileiros (aqui em casa nem se fala): O Feijão.

Baixe, imprima e use =D


sábado, 24 de outubro de 2015

#QLQRUA: Borboletas no estômago

Borboletas
Na frente do espelho o jovem ator respira profundamente, a ansiedade acompanha as pinceladas que ele dá com a maquiagem branca no rosto. Já as borboletas no estômago, essas batem suas asas em um ritmo frenético.

Ele se olha e se questiona: _Será que a maquiagem está boa, será que esta do jeito correto? Será que o público irá gostar?

Quem olhava aquela cena mal imaginaria o tumulto de ideias que passava na cabeça dele, afinal, apesar de ter 20 anos, ele era conhecido nos palcos. Mas a maldita ansiedade da estreia era a companhia do ator naquele momento.

Respirava ainda mais fundo, tentava relembrar o texto, passava-o todo na cabeça, imagina perder o fio da meada. Não seria para ele um problema, sabe improvisar, mas será que o resto de elenco saberia acompanhá-lo? Para não arriscar era melhor se manter assim, com todas as falas na ponta da língua.

De acordo com os atores mais experientes essas borboletas são comuns em todos os atores, nas estreias das peças teatrais, do cinema, da novela, do seriado. O jovem sabia disso, mas bem que ele queria tranquilizar aquelas batedoras de asas.

A estreia é sempre um momento importante na vida de todos nós, não é só pelo início de uma nova história, isso porque quando uma nova rotina é criada gera novas expectativas, algumas desnecessárias. Elas geram medo, pois não temos medos apenas de coisas concretas, como bichos, mas também é do desconhecido.

Nem sempre começar algo na vida é uma tarefa fácil, muitas vezes requer perdas, coisas deixadas de lado. Por vezes uma estreia é recomeçar, não sair do zero, mas transformar a história que está sendo construída.

O medo do jovem ator é compartilhado por todos nós, todos conhecemos bem, contudo, do jovem as borboletas se acalmarão quando ele pisar no palco, e irão embora quando as palmas para ele e todo o elenco encerrarem o espetáculo. Para todos nós, elas nos deixam aos pouquinhos e quando percebemos as borboletas já foram embora e as nossas barrigas livres de suas asas frenéticas.

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Leia as demais crônicas da série Em Qualquer Rua aqui.

sábado, 17 de outubro de 2015

#QLQRUA: Saudades

Foto: Banco de Imagens
Saudade é o tipo de coisa ingrata, algo que por vezes seria desnecessária existir. Maldita saudade, por que será ela faz doer tanto. Dói o coração, o estômago, os olhos, o corpo todo, a alma. O dia pode estar lindo lá fora. Pode ter um belo Sol decorando o céu, depois de tanta e tanta chuva, mas mesmo a cor azul não consegue cativar de forma extrema, apenas deixa o momento triste mais suave.

A saudade de quem já não está entre nós é a pior. Pensar no dia da despedida. Do tchau que nunca houve. Dos abraços que foram, dos que nunca serão dados. Do "te amo" que nunca será ouvido, dos beijos que não serão estalados...

Tem gente que quando sente saudades chora, têm pessoas em que queriam chorar, porém o máximo que conseguem é uma bola trancada na garganta. Respirar se torna tão difícil, suspirar acaba sendo uma realidade pausada.

Sempre haverá alguém que diz que o tempo fará a saudade irá aos poucos embora. Mentira, ela sempre estará lá, como um machucado incurável. A diferença é que haverá dias em que a ferida vai latejar menos, já em outros muito mais.

A saudade nunca nos deixará, pois assim é vida. O que resta quando ela vem mais forte é buscar nas coisas simples, nas pessoas que amamos, nos abraços quentes, no suco de laranja, no café ou no chocolate uns momentos de prazer, pois assim suportar a dor fica mais fácil e mais leve. Quando ela dói pouquinho, coisa que é quase diária, a vida segue, com os toques da alegria, da rotina, do calor, da pressa. Viver é isso, buscar a felicidade mesmo com todos os buraquinhos da alma.

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Chegando perto do objetivo. Essa crônica de número 63, da série Em Qualquer Rua. #RumoA70Crônicas

sábado, 10 de outubro de 2015

#QLQRUA: Com passos de diva e com a certeza de que amor não mata

Imagem: Bridal Perfume
Um coração partido sempre deixa o dono triste, mas ela não queria mais sentir aquilo, aquela angustia era muito ruim. Quem ele achava que era para tratá-la daquele jeito? Sem paciência para o chororo, decidiu menos de 12 horas depois de acabar o relacionamento sério de uma semana que não iria mais ficar na fossa, mesmo que o amor da sua vida tivesse batido as asas e voado para longe dela.

Levantou da cama, enxugou as lágrimas, ligou o rádio, de short e camiseta de mangas longas, peças do pijama branco de desenhos coloridos, passou a dançar num misto de liberdade, passos esquisitos e uma doce sensualidade. Cantarolando a canção de ritmo alegre, foi ao roupeiro escolheu uma camisa verde, pegou as calças jeans justas e que tem efeito levanta bumbum, abriu a gaveta e pegou o sutiã colorido e uma calcinha que não marca a roupa, passou a mão na toalha de banho e foi para o banheiro sem perder o ritmo da música que tocava.

Em baixo do chuveiro teve uma crise de choro, acompanhada de uma crise de riso. Decidiu que enfrentaria aquela dor, até porque chorar enruga a pele (nota desta autora: chorar incha o nariz). Tomou um banho morno, o banheiro virou sauna. O cheiro daquele ambiente era o mais agradável possível. Sair dali era um suplício, de tão gostoso que estava.

Vestida, saiu do banheiro em busca de um par de sapatos, pensou melhor, pegou o tênis. Voltou para o quarto esticou o lençol e pôs a colcha. Sentou na penteadeira, se olho novamente no espelho, na sua mente passava a seguinte frase "sou bonita, inteligente, se ele não quis, problema dele, eu supero". Tal pensamento passou quando no rádio tocou uma playlist especial, sendo que parecia que as músicas haviam sido escolhidas a dedo para ela. Ali sentada, com direito a balançadas de cabelo e dancinhas de ombro, ela passou o corretivo para tapar as olheiras, pó para tirar um pouco da oleosidade da pele, um blush para dar uma corzinha as bochechas.

Nos lábios o batom vermelho. Penteou os cabelos, deixou-os soltos. Pegou o seu perfume predileto, aquele que quando usa arranca suspiros. Passou no pescoço, na nuca, entre os seios, nos pulsos. Sentiu o seu perfume.

Pronta, levantou, abriu as janelas, desligou o rádio, pegou os fones, ligou o rádio do celular, botou os óculos escuros, passou a mão na chave e saiu.

Na rua, saiu com atitude, jeito de quem está no comando, atraiu olhares de homens e mulheres, sedutora sem ser. Saiu por aí, com passos de diva, tentando mostrar ao mundo que ela era especial, e a dor do amor, pode até doer, mas não mata e passa.

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São 62 crônicas da série Em qualquer rua e todas podem ser lidas aqui. #RumoA70Crônicas

sábado, 3 de outubro de 2015

#QLQRUA: A rua da Paixão

Imagem: banco de imagens
A rua da Paixão tem um nome bem poético, fica em uma cidade qualquer, num bairro qualquer. A denominação foi escolhido pela falta de criatividade dos moradores e pela falta de pessoas importantes historicamente, naquele local não havia nascido ninguém importante. Foi chamada de Paixão e assim ficou.

A rua da Paixão no passado era composta de malocas de papel e barro, nelas habitavam famílias enormes, algumas chegavam a ter entre 10 a 20 crianças, irmãos, primos e achegados. Com o avançar dos anos as malocas deram lugar a singelas casas de madeira, as famílias diminuíram, a miséria deu lugar a pobreza. Era um lugar de muito trabalho, feio, mas de muita alegria. Os vizinhos aos finais de tarde, no verão, iam para as calçadas conversar enquanto bebiam algo e comiam petiscos, enquanto as crianças brincavam para aproveitar as férias. Na rua apenas uma casa tinha televisão e todos a noite se reuniam na varanda para assistir aos programas musicais.

A vida não parou e assim a rua da Paixão também teve o seu estilo alterado. As casas de madeira seguem ali, outras são feitas de tijolo, porém nunca receberam reboco, outras estão acabadas, são simples, mas bonitinhas. A rua segue de chão batido, levantando poeira a cada ventania. A pobreza segue.

A rua da Paixão hoje tem moradores solitários, famílias enormes, famílias pequenas. Tem bacharéis, teve moradores que partiram e outros novos. Não tem mais a alegria de outrora, vive triste e amarronzada. Se antes era reduto da tranquilidade e da parceria entre vizinhos, hoje é local do medo, da insegurança. O tráfico tomou conta, as paredes das casas e dos muros tem marcas de balas. Os traficantes expulsaram alguns moradores, a polícia, o poder publico e todo o resto esqueceram da rua da Paixão.

Se antes as crianças aproveitam as noites de verão para brincar, atualmente são elas os mais frágeis neste esquecimento. Há algumas semanas atrás um menino de 12 anos morreu, com um tiro na cabeça, sabia de mais. Ele foi apenas mais um que perdeu a vida e entrou na estatística triste da velha e esquecida rua da Paixão.

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Leia mais crônicas da série em Qualquer Rua aqui.

sábado, 19 de setembro de 2015

#QLQRUA: Todo mundo espera alguma coisa de um sábado a noite

Tina, personagem de Maurício de Sousa./ Imagem: reprodução
Como diria a música: "Todo mundo espera alguma coisa de um sábado a noite", o que talvez o autor da canção, Lulu Santos, não esperava é que muitas pessoas querem neste dia apenas o silêncio.

Sim, o silêncio. Sem a agitação dos dias da semana, em que a rotina faz boa parte das pessoas irem para suas camas mais cedo, a noite de sábado é mais longa, vai madrugada a dentro. Não há, muitas vezes, a obrigatoriedade de acordar cedo, afinal é domingo. Logo, o sábado vira dia e noite de estudo.

Quem tem uma importante prova para fazer, quer por as leituras em dia, quer se atualizar, precisa se atualizar, e no caso dos professores corrigir os trabalhos e provas e colocar em ordem o caderno de chamada, o sábado acaba sendo um privilégio. Principalmente se acompanhado de uma temperatura baixa e chuva.

Quando todos da casa vão dormir ou saem de casa para alguma festa, baile ou bar, os cadernos, livros (impressos ou eletrônicos) viram companhia, assim como uma xícara de chá, café ou chocolate quente. Uma manta para tapar as pernas, um bom local para encostar as costas é tudo que uma pessoa neste perfil estudante precisa.

Todo mundo que necessita ler e estudar espera alguma coisa de um sábado a noite. Espera conseguir adquirir mais conhecimento, quer o silêncio, e uma boa dose de atenção.

Se o sábado a noite traz esse conforto, tão necessário, esperasse que o domingo também tenha algum tempinho disponível para continuar as tarefas. Já que segunda-feira toda a rotina seguirá e o tempo para dedicar a atenção aos estudos diminui.

Que os sábados a noite sejam muito bem aproveitados por quem precisa estudar. Que quando as altas temperaturas chegarem , algumas destas noites mais longas possam ser também usufruídas não apenas nas companhias dos livros, mas também da família, dos amigos, e quem sabe de uma cerveja bem gelada.

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Confira outras crônicas da série Em Qualquer Rua clicando aqui.

*editada às 21h53

domingo, 13 de setembro de 2015

#QLQRUA: Mudar é para quem tem coragem

A artesã trabalhava com lãs e linhas/ Foto: Mira Imagens
A artesã cheia de orgulho conta da sua nova trajetória de vida, logo após entrar no ônibus e sentar. Fala ao estranho a sua nova vida e como a mudança está sendo benéfica.

A senhora de rosto redondo, bochechas rodadas, maquiagem bem feita, nem gorda nem magra, mas com barriga, herança de duas gestações, seios fartos, portadora de um óculos discreto,blusa florida, calça jeans e sapatilha azul, aparentava ter pouco mais de 50 anos, demostrava simpatia e boa de papo. Empolgada, sim, dava para perceber, antes mesmo de abrir a boca, simplesmente por sorrir, mesmo em silêncio na fila para pegar o coletivo.

A mulher estava animada, depois de passar a vida inteira no interior ela veio morar em Porto Alegre. Era orgulho morar na Capital, mais ainda, ter toda a família aqui.

A artesã veio para a cidade acompanhar a filha. Só que a história é bem mais longa. Primeiro veio o filho prestar vestibular para direito, não passou, voltou para casa e tentou uma faculdade da região. Passou. A filha tentou arquitetura na mesma universidade do irmão por duas vezes e não passou. Tentou aqui e foi aprovada. Feliz da vida a menina veio de mala e cuia para a cidade, contudo, ela não imaginava que a adaptação seria tão difícil. Não curtiu morar em república, nem uma amiga de confiança para dividir um apartamento, morar sozinha tentou, sofreu com a solidão. Decidiu que iria largar tudo e voltar para a casa, sabia que ainda não era madura o suficiente para sair de baixo da asa da mãe e do pai. Sentia vergonha, pois ela conhecia um monte de meninas de 19 anos que já tinham casa, algumas além de casadas tinham filhos.

A mãe não deixou, resolveu se mudar para Porto Alegre, porém, não completamente, como o marido havia ficado para acompanhar o filho, eles trocavam. Ela ficava uns dias por aqui, depois vinha ele.

O que eles não imaginavam era que o rapaz, prestes a completar 22 anos, em uma das visitas a irmã fez vestibular e passou. Logo, se mudou também para Porto Alegre, como também odiava ficar sozinho foi morar com a irmã. Levou a mala, pois a cuia já estava na casa da garota.

Só que a artesã nem cogitou ficar longe dos filhos. Duas semanas depois, ela também foi embora, com a recusa do marido ameaçou a separação. Topava ficar sem marido, mas não longe dos filhotes, além disso, sabia bem que ele não aguentaria muito no interior. Dito e feito. Não deu uma semana e a família estava completa, sim, até o cachorro e o papagaio, em um apartamento quarto e sala. Só que naquela momento havia mais uma pecinha compondo o grupo, um peixinho beta.

Foi necessário procurar uma casa maior. Na pressa foi um apartamento mesmo. Em menos de um mês, casa nova, casa velha alugada, dois filhos acadêmicos, noites de sábado com os novos e velhos amigos do pai, viola que tocava, churrasco. O pai era aposentado e aproveitava as horas vagas para realizar trabalho voluntário. Já a mulher passou a dar aulas em uma loja de artigos para artesanatos, era a primeira vez que ela ensinava outras pessoas a fazer a sua arte. Isso foi algo que acrescentou a ela.

Feliz, sim, porque mudar é bom. Mesmo que dê medo. Claro que a artesã sentiu medo de mudar radicalmente de vida. Hoje mora com um apartamento de três quartos, um banheiro, uma sala, uma cozinha e uma varanda. Uma cidade agitada, caótica muitas vezes. Antes era uma casa grande, quatro quartos, dois banheiros, sala de jantar, de visitas, cozinha ampla, pátio. Silêncio, um município tranquilo. Claro que teve medo do marido deixá-la. Só que a mulher sabia o quanto era importante acompanhar os filhos naquele momento, sabia o quanto era preciso avançar. Ela sentiu medo, mesmo assim foi em frente, queria lutar por uma outra vida, estava cansada, queria viver e escrever outra história. E assim fez, não foi só a vida da família que mudou, do casal também. Descobriram que apesar dos anos de casamento, da juventude que se foi o que um sentia pelo outro não havia mudado. O desejo não havia acabado, estava adormecido, com tantas mudanças acordou.

Dar um novo rumo a vida é para todos que querem. Não tem idade, sair do lugar e possível a todos. Mudar a vida não é para quem é jovem, é somente para quem tem coragem de viver.

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Ops... madrugada de domingo. Neste final de semana fui agraciada pela visita de uma crise de rinite feroz que me deixou de cama. Além disso, a ideia era publicar no sábado a noite, mas a internet caiu diversas vezes e nada de voltar, obrigada OI!

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sábado, 5 de setembro de 2015

#QLQRUA: Em meio ao caos, eles se sentem seguros

Os pardais são bem conhecidos nas regiões/ Foto: Pixabay
Em meio ao caos que Porto Alegre se tornou nestes últimos dias, graças a falta de segurança, detalhes tão pequenos fazem o clima ficar mais ameno. Se o medo tem dado insegurança aos moradores humanos, a aproximação da primavera que traz para estes primeiros dias de setembro manhãs e noites frias, tardes quentas (cuja temperatura não vai muito além dos 20 C°), o vento, o sol e as pancadas de chuva tem agitado a passarinhada, que não se cansa de cantar.

Nos bairros mais afastados, nos subúrbios, nos da zona nobre, no centro da cidade. De norte a sul, lá estão eles a encher os papinhos e cantarolando. Para ouvi-los não é necessário muito, um pouco do silêncio. Que tal tirar os fones de ouvido?

Lá estão eles, na ponta de um poste de luz, em uma árvore, nos portões, nos muros, nos varais de roupa...

Quem tem canário, periquito ou outros tipos em casa, sabe que eles atraem os livres. Percebi que depois que comecei a criar periquitos minha casa se enche de pássaros. Mas não é apenas na minha, em várias outras o mesmo ocorre.

Em muitos lares eles buscam água, abrigo. Isso porque aprenderam que um telhado pode ser mais seguro que uma árvore. E telhados e árvores, Porto Alegre tem muitas.

Enquanto cantam felizes pelo calor que se aproxima, se preparam para os casamentos que virão durante a temporada das flores, e dos filhotes que nasceram no verão, as aves urbanas se sentem seguras para viver e despojar de suas liberdades. Que continuem assim, pois pelos menos eles sabem o que é segurança, já nós esperamos um dia reencontrá-la.

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sábado, 29 de agosto de 2015

#QLQRUA: A gatinha na janela e os protestos

Gato branco/ Imagem: 1Wallpaper
Da janela a gatinha branca observa tudo atentamente, fazia tempos que ela não via a avenida tão movimentada, com tantas pessoas. Ela lembrou que há dois anos atrás uma garotada havia começado essa onda de protestos.

A gatinha branca já é considerada velhinha, tem 17 anos, e gosta de passar os dias tomando banho de sol na janela do apartamento em que vive com a família. De lá, em uma almofada fofa colocada para o seu prazer, a bichinha fica de olho em tudo que acontece na rua. Ir lá, nem pensar, é muita gente, muito carro, logo é perigoso.

Desde filhotinha ela tem essa mania de ficar por ali. Mas senta, arregala os olhinhos só observando o que ela mais gosta, os protestos. O primeiro da vida dela tinha sido a marcha dos 100 mil em Brasília, na época morava lá, quando o pai humano era assessor de um deputado. Era um movimento com ampla participação do PT que era contrário ao governo da época, comandado pelo presidente FHC.

Um ano depois, já em Porto Alegre ela participou de uma caminhada cheia de gente, mas era pela paz, no Fórum Social Mundial. E ela não caminhou, mas foi no colinho gostoso do pai.

Depois disso, outros protestos e manifestos foram feitos, mas nenhum de expressão. Só que em junho de 2013 a situação mudou um pouco. Protestos realizados por jovens, sem partidos envolvidos. Para ela aqueles meninos e meninas que cantavam e gritavam pedindo melhorias na saúde, na educação dentre outros eram lindos. Só não gostava da violência envolvida nos protestos, violência causada pelos manifestantes e pelos policiais.

Recentemente ela tem observado ânimos mais aflorados. No domingo, 16 de agosto, em todo o País teve protestos contra o governo de Dilma Roussef, no qual muitas pessoas pediram o impeachment da presidente. A crise econômica no qual o Brasil vive, assim como os amplos casos de corrupção foram motivadores principais. Pelo estimado pelas PMs cerca de 160 mil pessoas fizeram parte dos eventos em todo o território nacional.

Dois dias depois foi a vez das pessoas pró-governo irem para rua, afinal eles queriam mostrar que querem o fim da corrupção, contudo, defendem a democracia e o direito da Presidenta ir até o fim do mandato. Muitas das pessoas envolvidas pediam que Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal, deixasse o cargo. Cerca de 20 cidades brasileiras tiveram o manifesto. Diferente dos protestos anteriores, estes de 2015 tem ligação com partidos políticos.

Recentemente a gatinha branca acompanhou mais um protesto. Na terça-feira, dia 25 de agosto, o movimento pedia uma coisa que certamente todos da Capital Gaúcha já sentiram falta. Segurança. Motoristas de taxi, de ônibus, lotações, cobradores, enfim, rodoviários em geral fizeram um ato, a partir do Largo Glênio Peres pedindo por mais segurança. De acordo com os manifestantes o número de assaltos aumentou, muito em razão da impunidade, do prende e solta. Esse protesto, para a gatinha foi o mais importante de se ver, já que ela sabe como é ruim passar por um assalto. Há quatro anos atrás ela foi roubada junto com o carro da mãe humana. Só de pensar por tudo que passou ela arrepia os pelinhos.

Verdade seja dita, aquele animalzinho entendeu as razões dos protestos muito melhor que muitas pessoas. Manifestar, protestar, pedir os seus direitos, cobrar os políticos é algo assegurado em lei. Protestar é a melhor forma de garantir a cidadania, é a melhor maneira que garantir a liberdade política de um país. É uma das muitas formas de cobrar aqueles que elegemos para comandar o Brasil.

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O personagem existe, mas alguns detalhes são mais literários, simplesmente para dar um estilo mais suave ao texto. Leia mais crônicas da série Em qualquer rua.

sábado, 22 de agosto de 2015

#QLQRUA: Nem toda vó

Nem toda vó...

... é chata
... é legal
... conta história
... pega no colo
...faz bolo de chuva
... odeia rock
... gosta de valsa
....curte sertanejo
... gosta dos netos
...é velha
...é nova
... têm filhos adultos
... tem muitos netos
...gosta de doce
... gosta de salgado
... gosta de sair
... gosta de bingo
... gosta de conversar com os vizinhos
... gosta de vegetais
... tem que tomar remédios
... tem cabelos brancos
... tem cabelos pintados
... tem só qualidades

Têm muitas vós...

... que odeiam música alta
... que amam rock-rool
...que amam ir ao baile
...que amam os netos
... que não gostam dos netos
... que têm filhos da idade do neto
... que tem neto pequeno e bisneto grande
... que tem mal humor
... que tem risada engraçada
... que tem que tomar remédios
... que gostam de salada
... que não gostam de comidas saudáveis
... que fazem bolo de chocolate
... que não sabem fazer nada na cozinha
... que namoram com o vô
... que não namoram ninguém
... que são viúvas
... que são separadas
... que são namoradeira
...que só contam histórias
.. que tem o cabelo grisalho
... que tem o cabelo colorido
... que odeiam fofoca
... que amam uma fofoca
...que são cheias de qualidades e cheias de defeito

Têm vós que gostam de uma coisa enquanto outras preferem outras. Simples como a vida. Não é a idade que transforma uma pessoa, e sim tudo aquilo que elas já viveram e o quanto querem viver, Vós são pessoas, são subjetivas. São mulheres que apesar da idade ainda possuem muitas doses de charme, no qual muitas se aproveitam, enquanto outras esqueceram.

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sábado, 15 de agosto de 2015

QLQRUA: O pai, a dor, a coragem e a pequena filha

Era muita dor para aquele rapaz e seus trinta e poucos anos. Uma dor que lhe rasgava o peito. Naquela tarde quente de sol ele enterrou a mulher de sua vida. A pessoa que amava com todas as forças, sua companheira desde os 20 anos.

Ele caminhava a passos apresados. Há dois dias atrás a dor compartilha espaço com uma alegria sem igual. A rapidez com que caminha é rumo a maternidade onde a pequena e frágil filhinha está.

O medo é maior que tudo. A cada passo um novo dilema: "como farei para criá-la sozinho? Como darei conta de assumir a casa, o cuidado com a meu grande amor e do trabalho? Nossa, meu grande amor! Meu grande amor é tão grande que não tenho noção de tamanho (risos) e tão grande e tão pequenina. Meu Deus, por que me deixaste? Por que não me levou e deixou a mãe? Como farei para explicar as coisas de menina? Como se fala sobre sexo com uma criança? Como vou conseguir a licença paternidade estendida? Como vou educá-la?...

Enquanto reclamava e se questionava em pensamento ia em direção a UTI Neonatal. Lá todos os pensamentos pararam, uma paz invadia o peito. Bastava olhar a menina que dormia tranquilamente na encubadora. Foi um susto seu nascimento, uma tristeza ver a esposa morta 12 horas depois, uma angústia ver a filha tão frágil.

Mas apesar de pequenininha, a guriazinha ainda sem nome, era forte e valente. Em breve iria para casa.

_Papai, está na hora da bebê mamar, senta que essa tarefa é sua!

Falou a enfermeira para o homem, que a olhou de forma apavorada. Ela apenas sorriu, o sentou e explicou como ele teria que dar o mama a neném, o quanto ela era era forte, que já havia ganhado peso, sobre a alta hospitalar.

Enquanto a enfermeira tirava a filha da encubadora, o jovem engoliu o choro. "Aquele era o momento da nossa mulher, teu e dela, da sua mamãe, filha".

Mas ao agarrar a pequena nos braços, coloca-la de forma apertada no peito, acarinhar a cabeça sem cabelinhos, e pegar a mamadeira de leite morninho, ele se encheu de coragem. Era incrível o poder que ela tinha de fazê-lo imaginar um presente, um futuro melhor.

Após a mamada, ele continuou com ela no colo, ela dormindo esboçou um sorriso. E o homem todo bobo, se perguntou como um dia ele conseguiu viver sem ela: "a minha super-guria".

E como se ela fosse entender o que ele falaria, soltou: _amanhã o pai vai te levar para casa e nós vamos assistir no Youtube as várias formas de arrumar o teu cabelo. Depois Vitória, vamos buscar a tua Certidão de Nascimento e procurar um advogado para que o pai consiga te cuidar em tempo integral por seis meses.

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Em qualquer Rua

sábado, 18 de julho de 2015

Pausa na série Em qualquer Rua

Neste mês de julho, a partir de hoje, 18 de julho, irei dar uma pausa na série Em Qualquer Rua. O trabalho está mais puxado este mês, já que além dos freelas e do Dois Minutos, no qual estamos cobrindo os jogos da Seleção  Brasileira no Pan e a partir de amanhã no Mundial Jr, também estou envolvida com a cobertura do Pan-Americano de Toronto. Apresento diariamente dois boletins informativos na Rádio Estação Web, intitulado Estação do Pan, e nesta mesma rádio que apresento o programete Nada Além de Dois Mintos, todas as quartas e duas sextas-feiras por mês.



Como a minha rotina ficou mais pesada, minhas horas vagas usarei para descansar, ler, estudar e também ficar com a minha família. Como me falta uma rotina fixa eu também não tenho muitos horários vagos prefiro aproveitar cada momentinho. Peço desculpas aos leitores e também compreensão.

Até agosto!

Abraço forte!

sábado, 11 de julho de 2015

#QLQRUA: O músico

Banco de imagens
Todos os dias ele acorda cedo. Prepara o café, toma banho, arruma o cabelo, põe a melhor roupa. De avental organiza a casa, leva os cachorros para passear.

Antes meio-dia esquenta o almoço, come, lava a louça. Afina os instrumentos musicais, pega a bolsa e sai. Por voltas das 12h15 está na parada de ônibus, pega o coletivo e vai até o Centro da cidade.

Chegando ao destino, ele organiza o seu espaço. Evita ficar no meio da rua, mas também não fica escondido. As pessoas estão em passos rápidos. Muitas em compras, enquanto outras estão a caça de um local para almoçarem, e outras já se direcionam aos seus trabalhos, após a refeição. Neste ritmo frenético, ele começa a tocar.

Primeiro uma leve sinfonia, uma música clássica tirada com maestria da guitarra. Depois começa a tocar músicas mais populares, toca sertanejo. Percebe que as pessoas já o observam enquanto caminham. A partir daí toca seu repertório preferido, os clássicos do rock.

As pessoas param para escutá-lo. Ele se alegrou. Deu o seu melhor, para agradar o público. A caixinha tem dias que fica cheia, tem dias que vazia. Sabe que mesmo quando tem lucro é necessário poupar, para ter o que comer no mês inteiro.

Às 16h ele para o espetáculo. Guarda a guitarra, vende alguns CDs. Recolhe a bolsa com os demais instrumentos, agradece a Deus por mais um dia, e vai rumo ao seu próximo compromisso.

Certa vez, já era 17h10 quando chegou na escola que dava aulas gratuitas as crianças que moravam na região. Estava atrasado, pediu desculpas a diretora do projeto e aos pequenos alunos. Naquele dia ensinaria um pouco mais sobre a arte de dominar os instrumentos de corda.

Apresentou para as crianças o violoncelo, o violino...

Ao anoitecer, logo após as aulas, ele se direcionou a sala da diretora para conversarem sobre os próximos passos que dariam. Discutiram por mais de duas horas e planejaram como fariam para arrecadar fundos para comprar os instrumentos musicais que seriam utilizados na aula. Acabado a conversa, foi para casa, como todos os dias.

Ao chegar brincou com os cães, tomou banho, ensaiou um pouquinho, preparou o jantar, comeu, lavou a louça, e foi dormir. Fazia isso todos os dias. Nos demais que viriam tudo igual.

Mas na semana passada, uma boa nova veio de uma empresa que doou os instrumentos necessários para a manutenção do projeto.

Mas hoje algo mudou. O Músico percebeu que entre a sua platéia estava uma moça conhecida. Era a jovem diretora do projeto. Com o fim da apresentação foi falar com ela, e por sua surpresa descobriu que ela sempre o via tocar.

Diferente das demais tardes, o caminho da escola teve companhia. Após a aula,o músico não vai para casa. Nesta noite vai relembrar como é bom viver o amor além de suas melodias.

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A história de um professor de música que escutei no ônibus deu origem a esta crônica.
Confira as demais histórias da série Em Qualquer Rua.

sábado, 4 de julho de 2015

#QLQRUA: a história dos invisíveis Joana e Felipe

Joana e Felipe eram irmãos. Moravam em uma vila de uma grande cidade, não tinham pai e a mãe era viciada em cocaína. Não sabiam quem eram os avós, nem ninguém da família. Enquanto estavam na creche estavam a salvos de toda a criminalidade existente na metrópole. Aulas de tempo integral, chegavam lá as 7h30 e só saiam depois de 12 horas. Iam para casa apenas apenas para dormir, muitas vezes com fome. Muitas sem a companhia da mãe durante as madrugadas.

Quando saíram da creche tinham cinco e seis anos. Estudaram em uma escola municipal, meio turno apenas. No tempo livre ficavam na rua, brincavam...

A mãe sem trabalho fazia pequenos furtos para conseguir manter o vício, que naquela etapa já era em crack. Muitos destes furtos acompanhada pelos pequenos. Com fome, Joana e Felipe pediam comida, depois aprenderam a pegar ônibus, iam até as avenidas principais  pediam esmola. No começo ganhavam, afinal, quem não cai aos encantos de pequenas crianças tão fofinhas.

Mas todo mundo cresce. Felipe foi violentando sexualmente aos 9 anos. Joana, com 10, tentou evitar e apanhou muito. Mas os dois não enfrentaram apenas estes tipos de violência, sofreram de todos os tipos.

Joana e Felipe seguiam pedindo para comer, porém não recebiam mais esmolas e poucos davam algo para que comessem. Trabalho não conheciam. A mãe foi presa por roubo a uma loja e os dois ficaram sozinhos em casa, já que fugiram dos conselheiros tutelares por medo.

Joana para conseguir dinheiro passou a se prostituir, tinha 11 anos. Aos 13 fazia pequenos assaltos. Engravidou aos 14 e seguia fazendo os programas e os assaltos, não sabia quem era o pai do filho que carregava no pequeno ventre.

Felipe fazia pequenos furtos. Invadia mercados e só roubava comida. Até conhecer um traficante e perceber que como aviãozinho recebia muito mais. Na época com 13 anos conseguiu dinheiro suficiente para fazer um enxoval simples, porém bonito, ao sobrinho que iria nascer.

Aos 16 anos Joana já era mãe de duas crianças e estava grávida do terceiro. Aos 15, Felipe também já era pai. No tráfico ganhou status e a irmã não precisou mais se prostituir, mesmo assim ela se mantinha nos assaltos, se especializou no roubo de veículos de grande porte. Seduzia caminhoneiros e quando eles menos esperavam eram assaltados pelo bando comandado pela jovem de encantadores olhos azuis e pele morena.

Felipe aos 18 anos era traficante e comandava a boca. Enquanto Joana, com 19, era temida no mundo do crime, estava grávida pela quinta vez. Tinha perdido a guarda dos três filhos, pois ela e o irmão haviam sido presos, e a quarta filha perdeu em um aborto espontâneo, aos seis meses de gestação, durante um assalto.

Sem conhecer o que era certo ou errado. Mantendo vícios, mantendo-se no mundo do crime os irmãos que sempre viveram unidos também esnobavam a lei. Aos 19 anos, Felipe foi morto durante um embate com a polícia. Morto com um tiro a queima roupa e enterrado como indigente. Joana foi presa um ano depois e hoje cumpre pena em um presídio federal. Não sabe onde estão os filhos.

Ninguém visita Joana nem coloca flores no tumulo de Felipe. A margem da sociedade, invisíveis, tal como quando nasceram e cresceram.

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Em uma época que tanto se fala em infância lembrei desta história que ouvi quando eu era criança, da marginalização dos invisíveis. Vale a reflexão, afinal quantas Joanas e Felipes existem sem que nós tenhamos notado?

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